Ela é uma das cartunistas mais famosas do Brasil, com uma longeva carreira repleta de tirinhas e charges sagazes. Em 2010, aos 57 anos, após um longo período de silenciosa metamorfose, mostrou-se publicamente como mulher, e hoje é uma ativista dos direitos transgênero. Ué, quem é ela? É Laerte Coutinho, desenhista talentosa que hoje investiga a mulher que pode ser.

Família

  • Laerte nasceu em 1951, em São Paulo, em uma família de classe média com quatro filhos. O pai era geólogo, professor universitário e a mãe, bióloga. Tudo muito científico.
  • Mesmo assim, Laerte trilhou o caminho da imaginação. Desde muito cedo desenhava nos papéis de pão que a mãe trazia da padaria, e reconstruía histórias em quadrinho que adorava. 
  • Decidiu seguir pelas humanas. Além de fazer curso de desenhista, também ingressou na USP em música e jornalismo. Acabou não concluindo as graduações, mas foi lá, na Escola de Comunicação, que encontrou um pessoal bem bacanudo com quem iniciou a vida de cartunista. 
  • Na universidade eles lançaram a “Balão”, história em quadrinhos que rompeu com o padrão vigente no Brasil até então, com temáticas mais adultas e estilo mais satírico.

Trabalho e resistência

  • Em 1970, aos 22 anos, em plena ditadura, Laerte começou oficialmente a carreira de desenhista, e logo tornou-se chargista em diversos jornais do país.
  • Nesse período, por mais de 10 anos, também foi militante do partido comunista brasileiro. Ela produziu material de campanha para o MDB (partido de oposição ao regime militar), e também trabalhou na produção de cartões de solidariedade para auxiliar presos políticos.
  • Em 1974, Laerte venceu um dos maiores concursos de desenho do Brasil, com a charge “O Rei Estava Vestido”, sobre censura à liberdade de expressão da época. Em 1975, inclusive, ela chegou a fugir por alguns dias para não ser presa.
  • Ao longo dos anos 1980, Laerte criou inúmeros personagens e participou de dezenas de publicações. Consolidou-se como uma das cartunistas mais premiadas nas artes gráficas brasileiras.
  • Na década de 90, atuou como roteirista na Rede Globo, em programas como TV Pirata, Sai de Baixo e TV Colosso. 

O luto

  • Em 2005, um de seus 3 filhos, Diogo, de 22 anos, morreu em um acidente de carro no domingo de carnaval. A partir do luto, a desenhista deu uma virada na carreira. Largou o humor mais escrachado em troca de produções mais existenciais.
  • “Tudo na minha vida se radicalizou. Não tinha jeito […]. Aquela coisa de resolver uma tira com uma piada legal, reconhecível, era algo que não me satisfazia mais como autora”, ela conta.
  • Desde então, Laerte se tornou experimental. Deixou seus personagens, já cativos do público, e desenvolveu figuras como uma tecelã canibal, uma noiva morta-viva, uma mulher-cavala, um homem-lua ou um sapo à procura de ideologia. A ideia era questionar os próprios fundamentos da tira de humor. 
  • Enquanto revolucionava seu trabalho, contudo, Laerte deixou latente a transformação de si mesma, que já havia começado em 2004, mas só afloraria de vez em 2009.

Tornou-se mulher

  • Laerte foi redescobrindo sua identidade de gênero por meio de seu trabalho. Ainda em 2004, publicou uma charge em que o personagem Hugo, maquiado, de salto alto, dizia: “Às vezes um cara tem que se montar”. E aos poucos Hugo foi se transformando em Muriel, enquanto Laerte se transformava junto.
  • Nessa época, uma leitora lhe perguntou se a charge era autobiográfica, e contou que existia o Brazilian Crossdresser Clube, que Laerte viria a frequentar.
  • Com a morte de Diogo, entretanto, o processo foi interrompido. Foi só em 2009, aos 57 anos, que Laerte se declarou transgênero, e, como conta, “começou a comprar calcinha no extra” (ainda não tinha a Pitaya, né meninas?!). Ela passou a participar do clube de Crossdresser, mas ainda escondia “do mundo”. 
  • Com a depilação, ela começou a se ver inteira, e vestir-se passou a ser um modo de expressão. Afinal, “diferente dos homens, que têm o mundo para si e podem sair de casa como quiserem, as mulheres não. Elas estão no mundo dos homens, elas precisam prestar atenção”.
  • Foi em 2010 que ela saiu de vez do armário, em uma entrevista para a revista Brava. E prometeu que não voltaria mais.
  • Hoje, sem renegar o homem que foi, Laerte é avô e pai, e mulher. “Sinto, mais do que penso, que estou fazendo algo vital. estou fazendo uma investigação da mulher que eu posso ser. Não ia virar mulher, ou nascer de novo. A alegria é poder exercer essa liberdade. Estou descobrindo o que é ser mulher naquilo que me cai, me cabe, me expressa”.

Ser trans no Brasil

  • Laerte converteu-se na cara da comunidade transgênero no Brasil. “É importantíssimo que existam modelos positivos. Eu nunca os tive quando jovem. Existir de forma tranquila, assumindo identidades antes proibidas, é transgressor e produz resultados”, afirma. 
  • Em 2012, ela fundou a ABRAT, Associação Brasileira de Transgêneros, organização para defender a livre expressão da identidade transgênera, os direitos civis das pessoas transgêneras. “A gente está aí para que as pessoas percam o medo de se reconhecer como transgêneras, como transexuais, como homossexuais, ou o que for. Para as pessoas não se sentirem ridículas, erradas, bizarras, como o ponto de vista conservador faz questão que elas se sintam”. 
  • Em 2021, o Brasil registrou 140 assassinatos de pessoas trans. Todas mulheres, 81% pretas ou pardas,  78% prostitutas e 77% das vezes assassinadas com “requintes de crueldade”. O número garantiu ao país o topo do ranking mundial pela 13a vez consecutiva. 
  • A expectativa de vida de travestis e transexuais femininas no Brasil é de 35 anos de idade. Poucas são aceitas pelas famílias, e acabam sendo expulsas de casa muito cedo (há estudos que indicam uma média de 13 anos). Elas ficam vulneráveis, e muitas vezes recorrem à prostituição para sobreviver. Estimativas apontam que essa é a fonte de renda de 90% dessa população.
  • Apesar da realidade difícil, a representatividade política e a visibilidade tem aumentado. Em 2020, houve mais de 270 candidaturas de pessoas trans para prefeituras e câmaras de vereadores (em 2016 foram só 89), e pelo menos 27 foram eleitas. [Ah, e também temos a Linn no BBB, né?]
  • As cirurgias de redesignação de sexo, proibidas no Brasil até 1997, hoje são feitas em vários hospitais públicos; desde 2018, pessoas trans têm direito de retificar nome e gênero em sua documentação; e, desde 2019, a transfobia foi criminalizada.
  • Os avanços são graduais e recentes, mas a luta pela dignidade está recém começando. Vida longa e próspera às Laertes desse Brasil!

Esse texto é  da Pitaya, a primeira assinatura de calcinhas e sutiãs do Brasil.

Mais do que uma assinatura, uma comunidade de mulheres empoderadas.

Afinal mulheres modernas merecem ser cuidadas, e bem estar começa na intimidade.

Ficou curiosa? Confere como funciona aqui e se tiver qualquer dúvida fale com a gente por aqui.

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