A homenageada de abril da Pitaya, seu clube de assinatura de calcinhas favorito, é uma mulher negra, que foi o maior nome do telejornalismo feminino brasileiro. Com uma carreira de mais de 50 anos, ela fez reportagens incônicas, entrevistou astros nacionais e internacionais e até cobriu uma guerra. Conheceu mais de 160 países e gostava de sentir medo. Ué, quem é ela? É a Glória Maria, uma das jornalistas mais famosas do Brasil, que nos deixou no começo deste ano.

Infância nômade

  • Glória Maria Matta da Silva nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, em uma família de poucas recursos. O pai, alfaiate, e a mãe, dona de casa, viviam com dificuldade de pagar os aluguéis, e a família tinha que se mudar frequentemente.
  • Glória conta que a cada um ou dois anos, mais ou menos, mudavam de apartamento. E lembra que as ordens de despejo eram frequentes também. Foi desse nomadismo que a menina se habituou com as mudanças e deslocamentos, que se tornariam frequentes na sua vida profissional.
  • Ah, e o ano de nascimento dela? Isso é um mistério que não gostava de revelar. Por muitas gerações na sua família, descendente de escravizados, ninguém havia sido registrado. Criada assim, quis manter a tradição.
  • Em uma família de analfabetos, Glória foi uma das primeiras a estudar. Se na escola primária foi a mãe quem a matriculou, depois dos 12 anos ela estudava porque queria. Ela mesma fazia sua própria matrícula e ia para a escola por conta própria. Era boa aluna, e redação era o seu ponto forte! Adorava escrever.
  • Outra paixão que nutria era pelos países estrangeiros. Desde pequena colecionava álbuns de figurinhas com as vestimentas típicas de povos do mundo todo, que sonhava um dia conhecer. Mal sabia ela que um dia veria de perto a maioria deles!
  • Glória conta que foi educada pela família para ser livre, para fazer o que bem entendesse. “Ninguém me enquadra”, dizia. Foi assim que ela foi a primeira da família a ingressar na universidade, para cursar jornalismo, com bolsa na PUC Rio.

Pioneira na TV Globo

  • Segundo Glória, sua entrada na Globo aconteceu graças a uma amiga, que era secretária na emissora e a indicou para uma vaga, que não era paga. Para se sustentar, a jornalista trabalhava na Embratel, como telefonista. Entrava na Globo às 7h e saía às 20h, e à noite ainda ia para o segundo emprego.
  • Em 1970, se tornou a primeira jornalista negra na televisão brasileira, e, em 1971, estreou em uma transmissão ao vivo. A partir daí, foi logo promovida a âncora do jornal do Rio, para mais tarde fazer reportagens para o Jornal Hoje e o Jornal Nacional.
  • Glória entrou no ar ao vivo na primeira matéria com imagem colorida do Jornal Nacional, em 1977. E não é que minutos antes da transmissão a lâmpada do equipamento queimou? Improvisando, ela e o cinegrafista tiveram que usar os faróis do carro para iluminar a rua, e se ajoelharam para manter o enquadramento.
  • A jornalista também cobriu acontecimentos políticos importantes, como a posse de Jimmy Carter. E, no Brasil, durante a ditadura, entrevistou os presidentes militares. Com João Batista Figueiredo, que implicava com ela, teve de enfrentar situações abertas de racismo. ‘Não deixe aquela neguinha chegar perto de mim’, o general chegou a dizer à segurança.
  • Em outra ocasião, Glória foi barrada ao tentar entrar em um hotel onde acontecia uma coletiva de imprensa. Ela chamou a polícia e levou o gerente para os tribunais, acionando, pela primeira vez no país, a Lei Afonso Arinos, que punia o racismo como contravenção.
  • Já em 1982, ela insistiu com o seu editor para ir cobrir a Guerra das Malvinas, na Argentina, e tornou-se a primeira mulher brasileira a cobrir um conflito. Ela transmitiu o cessar fogo de lá, duas semanas depois de chegar.

Mulher fantástica

  • A partir de 1986, Glória integrou a equipe do Fantástico, do qual foi apresentadora de 1998 a 2008. No programa semanal, todos puderam conhecer Glória Maria na sua melhor versão. Além de seguir cobrindo acontecimentos importantes no mundo todo, ela passou a fazer matérias especiais, em lugares exóticos, e a entrevistar celebridades.
  • Entre os famosos estão Michael Jackson, Harrison Ford, Nicole Kidman, Leonardo Dicaprio, Mick Jagger, Fred Mercury, Madonna, Elton John, só pra citar alguns. E em uma época em que os jornalistas eram blasé, Glória transbordava sentimentos.
  • Foi isso que encantou os entrevistados e o público. Ela não fingiu costume ao ver uma Ferrari do Ronaldinho, por exemplo. E não resistiu a se jogar nos braços de Julio Iglesias quando o conheceu.
  • A jornalista conta que muitos dos laços que desenvolveu por meio do trabalho tornaram-se amizades da vida. Para o rei Roberto Carlos, então, ela tinha um carinho todo especial, que era retribuído. Depois de passar por uma cirurgia, por conta de sua doença, Glória conta que o cantor foi o primeiro a ligar para ela para desejar uma boa recuperação.
  • No Fantástico, a jornalista também seguiu cobrindo notícias e eventos internacionais. Em 1996, ela foi a responsável pela perigosa cobertura da invasão da embaixada brasileira do Peru por um grupo terrorista, por exemplo. Em uma década de apresentação do programa, Glória deu sua primeira volta ao mundo, levando sempre o telespectador com ela.
  • Em 2008, a repórter tirou dois anos de licença para se dedicar a projetos pessoais. Ela foi à Índia e à Nigéria para trabalhar como voluntária, o que também fez em Salvador. Foi nesse período que adotou suas filhas, as bahianas Maria e Laura. Ao retornar à Globo, em 2010, pediu para integrar a equipe do Globo Repórter, último programa do qual fez parte.

Glória pelo mundo

  • Somando viagens a trabalho e a passeio, em 40 anos de andanças, Glória Maria preencheu 15 passaportes, com carimbos de mais de 163 países diferentes. Pouquíssimos ficaram de fora. E o que ela mais gostava era do contato humano que essas experiências propiciavam.
  • Certamente era incrível ver monumentos arquitetônicos e paisagens icônicas, mas o que Glória queria mesmo era entender os povos, sentir as culturas, compreender o que as pessoas daqueles diferentes lugares sentiam. Normalmente ela ficava entre 20 dias e um mês em cada país que visitava, para ter a oportunidade de conhecer não só as grandes cidades, mas também o interior.
  • Ela conta que, em uma viagem para o interior da Sérvia, conheceu uma senhora que não tinha televisão e nunca tinha visto uma pessoa negra em toda sua vida. Glória foi a primeira. Com essa abordagem mais pessoal, a jornalista foi paradigmática, inaugurando um novo tipo de reportagem participativa no Brasil.
  • Outra característica marcante de Glória Maria era a coragem, não tinha nada que ela não topasse. Subiu duas vezes o Himalaia, até o acampamento base do Everest; pulou de bungee jump do ponto mais alto do mundo em Macau, na China; caminhou de um balão a outro no meio do céu, em uma tábua de ferro; desceu de bote o Rio Colorado, nos EUA; cruzou o deserto do Saara em um dromedário para mostrar a vida dos povos nômades; viajou por toda transiberiana e vivenciou a aurora boreal na Noruega; viveu a gravidade zero, em uma nave da Nasa; fumou maconha em uma comunidade rastafari na Jamaica.
  • A jornalista jurava que sentia medo, e que gostava desse sentimento, para se sentir mais viva e se conhecer melhor nas situações mais adversas. “Eu sou uma pessoa movida pela curiosidade e pelo susto. Se eu parar para pensar racionalmente, não faço nada”, dizia.
  • Em novembro de 2019, Glória desmaiou em casa e acabou descobrindo um câncer no cérebro. Mesmo após a cirurgia, ela prosseguiu o tratamento. Mas em dezembro de 2022, ela foi internada para tratar um câncer de pulmão, e acabou falecendo em fevereiro de 2023.
  • Glória Maria é uma referência nacional, não apenas para todas as mulheres negras que puderam se espelhar na potência dela, mas para qualquer uma que cogite se limitar. Muito à frente do seu tempo, ela enfrentou o racismo e seus medos para ser quem ela queria ser. E que ser Fantástico! Que Glória Maria seja sempre lembrada e reverenciada, pelas portas que abriu na Globo, no Brasil e no mundo para todas que não acreditavam que podiam ir mais longe.

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